segunda-feira, 18 de julho de 2016

Psicopedagogia e Contação de Estórias


Furia Versus Inteligência *

*Contação livre da estória “O pescador e o gênio”.


Era uma vez um pescador muito pobre. Em certa manhã, como de costume, saiu em direção à praia, sentindo-se entusiasmado com a possibilidade de realizar uma boa pescaria. Porque era um homem muito religioso, não iniciou seu trabalho senão depois de realizar suas habituais orações, pedindo a benção divina sobre o mesmo. Em seguida, se propôs a lançar a rede ao mar por quatro vezes e, independentemente do que alcançasse após essas tentativas, voltaria para sua casa levando o que tivesse obtido. Após adentrar  ao mar e, tendo chegado a certa profundidade, lançou a rede pela primeira vez. Ao recolhê-la, constatou que havia pescado apenas o cadáver de um burro. Por um momento, o pescador se deixou tomar pela decepção, mas ainda que se sentindo sob “os caprichos do destino”, apostou que as próximas tentativas seriam mais recompensadoras, e assim continuou fazendo o que sabia e podia fazer, lançar a rede ao mar.
Na segunda tentativa, sua sorte não foi melhor, nem na terceira. Uma vez após a outra, o pescador obteve resultados desanimadores ao recolher a rede. Esses repetidos insucessos em obter uma boa pescaria levam o pescador a sentir-se amargurado, concluindo que em muitas situações a sorte pode ser favorável ao “canalha” e contrária ao “homem educado”.
Por fim, as coisas ainda pioraram quando, ao recolher a rede pela quarta vez, puxou um “vaso de cobre amarelo”, cuja boca “se encontrava lacrada com chumbo”. Não pensou duas vezes, e logo pegou uma faca e começou a romper o lacre.
Sobre o ser que habitava o interior do vaso, conta-se que foi aprisionado ali por ter desobedecido o rei Salamão, considerado por muitos o homem mais sábio que já existiu. Pois bem, quando o lacre foi retirado, o referido prisioneiro, nada menos que um Ifrit, assumindo a forma de uma fumaça escura, abandonou o local em que estivera aprisionado havia quase dois mil anos. Em seguida, a fumaça foi tomando forma de uma figura gigantesca, cuja estatura se estendia do chão até as nuvens. Sua aparência era tão horrenda, tão amedrontadora, que fez os ossos do pescador congelarem de pavor. Essa criatura, além da aparência assustadora, tinha intensões não menos pavorosas, que consistiam em matar aquele que a pusesse em liberdade, como recompensa por tê-lo feito, permitindo apenas que o infeliz escolhesse o tipo de morte com a qual deveria morrer.
Imagine-se por um momento no lugar do pobre homem. O que você faria para tentar escapar do furioso gênio?
 A princípio, o pescador chorou, implorou misericórdia, mas, em seguida, percebendo que suas súplicas não seriam atendidas (porque o Ifrit se mostrava inflexível em relação ao que pretendia fazer), elaborou uma estratégia para se ver livre do ser ameaçador, depois de conseguir recuperar alguma calma, que era necessária ao uso de sua razão. Seu plano era o seguinte. O pescador simularia incredulidade em relação ao fato de tão gigantesca criatura ser capaz de viver contida em um simples vaso, ainda que não fosse tão pequeno como um vaso comum. E o gênio, para seu azar, acreditou que o pescador apenas queria confirmar essa opinião. E, por isso, a horrenda figura se transformou em fumaça, entrou novamente no vaso, o qual foi rapidamente fechado pelo pescador, tão logo se certificasse de que a criatura estava toda em seu interior. Ao perceber que caíra no plano do pescador, o gênio se esforçou para tentar sair do vaso novamente. Mas não conseguiu, pois foi selado com o mesmo lacre usado para aprisioná-lo anteriormente, impossível de ser rompido, pois continha a menção do poderoso nome do criador de todas as coisas sobre ele.
O modo como a estória termina me fez lembrar da conclusão de uma fábula de Monteiro Lobato, em que a galinha consegue lograr a raposa, cujo desfecho é expresso com a seguinte máxima: “contra esperteza, esperteza e meia”.

A Psicanálise, o Uso da Imaginação e a Psicopedagogia Institucional

Recentemente, comecei a trabalhar, no âmbito institucional, com a contação de estórias. É interessante observar como a instituição responde positivamente a iniciativas desse tipo e o quanto as estórias maravilhosas tem o potencial para despertar situações capazes de promover a humanização na convivência do coletivo escolar. Uma boa narrativa é capaz de captar o interesse, de mobilizar algo de nosso mundo interno, ao falar de coisas imaginárias, as quais contém algo de verdadeiro sobre nós mesmos. A importância dessas estórias foi um tema bem desenvolvido pelo autor de A psicanálise dos contos de fadas. Quando trata da questão da relação entre verdade e mentira, relacionadas ao mundo imaginário, e do receio de muitos pais em relação a essas histórias, pelo fato de que as mesmas não parecerem “verdadeiras”, Bettelheim afirma:

Algumas pessoas consideram que os contos de fadas não apresentam quadros de vida “verdadeiros”, e que, por conseguinte, são pouco saudáveis. Não lhes ocorre que a “verdade” na vida de uma criança possa ser diferente da dos adultos. Não percebem que os contos de fadas não tentam descrever o mundo externo e a “realidade”. Nem reconhecem que a criança sadia nunca acredita que estes contos descrevam o mundo realisticamente (1980, p. 147).

E mais adiante, retoma a questão, afirmando:

Outros pais temem que a mente da criança possa ficar tão entupida de fantasia de fadas que não aprenda a lidar com a realidade. De fato, o oposto é verdadeiro. Embora sejamos complexos – cheios de conflitos, ambivalências e contradições -, a personalidade humana é indivisível. Qualquer que seja a experiência, sempre afeta todos os aspectos da personalidade ao mesmo tempo. E a personalidade total, de forma a poder lidar com as tarefas da vida, precisa fundamentar-se numa fantasia rica combinada a uma consciência firme e uma apreensão clara da realidade (op. cit. p. 149).

A partir de sua experiência clínica, é o mesmo autor quem argumenta que “as teorias de repressão do id não funcionam”. Nesse sentido, exemplifica mencionando como uma criança que havia perdido a fala recuperou-a após a realização de um extenso trabalho terapêutico, mostrando o quanto o mutismo tinha relação com aspectos emocionais que fora obrigado a reprimir (op. cit, p. 152).
Podemos perceber, também em nossa experiência, que há um grande potencial na contação de histórias, para captar a atenção e despertar a reflexão de públicos de qualquer idade. Ao contar a estória O pescador e o Gênio, apresentando também algumas contribuições decorrentes de análises do conto do ponto de vista psicanalítico, como apresentadas por Bettelheim, percebemos grande interesse do público-alvo.
A valorização do pensamento pelos ouvintes foi observada em várias situações, como no momento em que o gênio esbraveja as ameaças de morte contra o pescador. Nesse momento, solicitava-se a opinião antes de apresentar a estratégia utilizada pelo personagem, pedindo ao público ouvinte (adolescentes) que imaginasse soluções para o conflito.
Algumas respostas como “eu sairia correndo”, foram constantes. Debatemos depois a respeito da maneira como costumamos responder, de modo automático, diante de situações que percebemos como ameaçadoras. A possibilidade de encontrar alternativas inteligentes para conflitos que acionam nossas defesas, e do papel do pensamento como forma de agir de modo eficaz diante das situações que nos mobilizam, gerou uma discussão produtiva.
Uma das situações discutidas ocorreu a partir da análise que Bettelheim (op. cit. p. 39) faz da maneira como o gênio reage ao seu aprisionamento, ao falar dos “sentimentos engarrafados”. Sobre essa expressão, o autor explica como o gênio, ao ser aprisionado, a princípio prometeu que recompensaria quem o libertasse, mas, a medida que o tempo passou, vendo frustrados seus anseios pela liberdade, jurou, da próxima vez, que mataria quem o libertasse. Essa observação serviu, durante a dinâmica, para levar a uma reflexão sobre como os sentimentos, recalcados, podem gerar sofrimento.
A partir da mesma expressão, foi proposta uma dinâmica, por meio da qual todos os que ouviram a estória foram convidados a pensar em seus sentimentos engarrafados e, a menos que os considerassem como pessoais, poderiam produzir uma frase, um texto, um desenho ou simplesmente uma declaração de algo que desejassem expressar ao grupo.
A partir das respostas obtidas na dinâmica anterior, estudamos um artigo relacionado aos motivos que levam os jovens a buscar no alcoolismo, no tabagismo e nas demais substâncias, formas de lidar com ansiedades decorrentes da timidez, da pressão do grupo, entre outras situações, e o quanto essas pressões podem estar relacionadas aos “sentimentos engarrafados” desses jovens.
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (v. 10) encontramos, entre os “objetivos gerais do ensino fundamental”, a necessidade de tornar os alunos capazes de: “Posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas”.
Também podemos considerar o papel conferido à escola, quando o mesmo documento aborda a relação entre esta instituição e a saúde, ao afirmar: “A escola cumpre papel destacado na formação dos cidadãos para uma vida saudável” (v. 8, p. 34).
Nesse sentido, um colega de magistério comentou que achou interessante o uso da imaginação como forma de envolver os educandos em situações de reflexão. Embora estejamos dando os primeiros passos nesse projeto, por meio do diálogo entre Psicanálise, Psicopedagogia e saúde, foi possível perceber que essas situações possibilitaram pensar a escola como espaço relacionado aos diversos aprendizados, o que, às vezes, se estende (ou deveria) aos aspectos práticos da vida cotidiana.
    
Bibliografia
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: apresentação dos temas transversais, ética. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997.
Anônimo. Livro das mil e uma noites, volume I, ramo sírio. 3 ed. São Paulo: Editora Globo, 2006.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Atuação Psicopedagógica Institucional: a Diversidade do Aprender e as Parcerias Possíveis

R. está com 16 anos e cursa o 9° ano escolar pela segunda vez. O educando foi atendido a partir da observação de que apresentava “desânimo” durante as aulas, consequência de sua desmotivação para os estudos escolares. A queixa escolar elaborada por uma das educadoras de sua classe, na ocasião em que realizou o encaminhamento, mencionou ainda a inexistência de dificuldades de aprendizado, pois “quando está disposto, R. realiza todas as tarefas”. Durante o seu atendimento, foram realizadas atividades envolvendo sua escuta e algumas dinâmicas psicopedagógicas. Como foi possível perceber, a “desmotivação” para os estudos escolares, presente na queixa, ficou confirmada, de acordo com as próprias palavras do educando, que afirmou que sentia ter perdido seu hábito para os estudos das disciplinas do currículo.  Outra questão observada, durante os momentos em que R. esteve em atendimento, foi sua grande capacidade para o aprendizado como autodidata, pois demonstrou ter assimilado muitos conhecimentos sobre programação de computadores, mesmo sem nunca ter frequentado cursos formais nesse sentido. Assuntos relacionados à informática absorvem um período significativo de suas pesquisas em tempo livre. Portanto, o desejo de aprender, embora em situações diversas das encontradas comumente em sala de aula, foi constatado. Quando perguntado a R. se gostaria de frequentar um curso para aprimorar seus saberes na área da programação de computadores, ele respondeu que se tivesse a oportunidade, investiria nessa área, buscando aprofundar seus conhecimentos do assunto.
Não foi percebida a presença de questões de natureza emocional que pudessem interferir em seu aprendizado, a não ser a própria questão apontada anteriormente, relacionada ao âmbito pedagógico. Aliás, foi percebido que, quando o assunto abordado envolveu coisas de seu interesse, o educando demonstrou visível entusiasmo. Ao concluir as sessões de atendimento, a hipótese foi que a existência de obstáculo epistemofílico em relação aos conteúdos pedagógicos poderia estar relacionada ao fato de R. encontrar poucas condições de desafio nas situações pedagógicas usuais, além do que o ensino nos moldes convencionais não oferecia a oportunidade de que o educando desenvolvesse suas habilidades na principal área de seu interesse.
Concluímos nossas observações tendo como hipótese que seria importante que R. tivesse acesso a um projeto onde pudesse exercitar suas habilidades e seus interesses pela programação de computadores, bem como recebesse a oferta de estimulação suplementar em sala comum, ofertando a possibilidade de pesquisar conteúdos pedagógicos de seu interesse, sendo encorajado a divulgar suas descobertas por meio dos recursos existentes na unidade escolar (jornal de mural, blog, etc). Encorajar educandos que tenham habilidades diferentes das demonstradas pela maioria dos colegas de turma pode se transformar em um caminho para a promoção dos talentos individuais, assim como essa atitude pode possibilitar que a escola passe a ser uma instituição em consonância com os discursos atuais sobre a educação pautada pelo ideal democrático. Nesse sentido, é importante considerar que:

“Uma educação democrática deve levar em consideração as diferenças individuais e, portanto, oferecer oportunidades de aprendizagem conforme as habilidades, interesses, estilos de aprendizagem e potencialidades dos alunos” (FLEITH, 2006, p. 11).

Para poder contribuir com o desenvolvimento de potenciais, é importante que o educador:

“Investigue os interesses, os estilos de aprendizagem e de expressão dos seus alunos ou observe-os de forma a identificar seus interesses, pontos fortes e talentos” (Op. Cit., p. 20).

Neste momento, temos indícios para crer que R. seja um educando que pode ser vantajosamente classificado no público-alvo definido como Altas habilidades/superdotação, conforme terminologia oficial. De acordo com o enfoque da educação inclusiva, o aluno com “altas Habilidades” é aquele que apresenta: “potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade” (Brasil, 2010, p. 71). Assim sendo, após as considerações anteriores, o caso foi encaminhado à professora do AEE (Apoio Educacional Especializado) da unidade escolar em que o educando estuda, para verificação das adequações necessárias, visando o progresso educacional de R.


Consulta

Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Marcos Político-Legais da Educação Especial na Perspectiva da Educação inclusiva. Brasiília: Secretaria de Educação Especial, 2010.


FLEITH, Denise de Souza. Educação infantil : saberes e práticas da inclusão : altas habilidade/superdotação – Brasília : MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Seguindo o Fio de Ariadne

Teseu, o herói da mitologia, era filho do rei ateniense Egeu e de Etra. A leitura do mito nos ensina que, embora imbuído de valores elevados e da capacidade de derrotar o Minotauro, a possibilidade de levar sua missão a bom termo e encontrar a saída do labirinto dependia de conhecer a técnica, que consistia desenrolar a linha ao entrar e em segui-la ao sair daquele local, a fim de encontrar o caminho de volta e conduzir os que o acompanhavam em segurança para fora do mesmo. Como Teseu, estar imbuído de desejo de transformar as circunstâncias não basta, é necessário ter condições de conduzir para a saída do labirinto.
Nesse sentido, cada história de vida que o profissional de Psicopedagogia conhece leva-o a continentes desconhecidos, a terras muitas vezes nunca desbravadas. A necessidade de saber lidar com o sofrimento de cada caso se apresenta, quanto mais existem elementos que remetem ao significado do sintoma no núcleo familiar. No presente caso, a dificuldade corresponde à apropriação do conhecimento por parte da criança em um nível muito abaixo de suas reais possibilidades, o que levou à necessidade de conhecer os significados que eram atribuídos ao sintoma no interior da família. Essa questão traz à memória inúmeros casos já atendidos, como o daquela mãe que, ao começar o relato, durante a anamnese, afirmou:

“A gravidez não foi planejada. O meu (filho) mais velho estava só com 11 meses e eu não queria engravidar. Quando o T. nasceu, ele nem chorou. Então eu pensei que não devia mesmo estar grávida”.

A anamnese deve ser um momento dedicado à entrevistada, sem que haja demonstrações de ansiedade por parte do entrevistador, qualquer que ela seja. Conta-se que em determinada ocasião, uma paciente, após interrompida seguidamente por Freud, dirigiu-se a ele, dizendo-lhe “você fala demais”. Uma escuta atenta possibilita a existência de condições suficientes para que quem escuta sirva como uma “superfície projetiva” (Laplanche, 1991) e para quem é entrevistado poder realizar as livre associações com os fatos que vai narrando, o que favorece a melhor compreensão dos significados inconscientes relacionados à queixa.
O psicopedagogo, durante a entrevista, deve estar preparado para não ser surpreendido pela intenção de projetar as suas próprias expectativas sobre aquilo que ouve durante o relato, pois poderia cair na tentação de procurar auxiliar pela fala, no momento em que deveria auxiliar apenas ouvindo.

No caso ilustrativo da entrevista com a mãe de aluno relatado acima, pode-se perceber a presença de um mecanismo de defesa do ego conhecido como “negação”. Estar atento a essas verbalizações pode ajudar a compreender os sentimentos manifestados pela genitora em relação à descoberta da gravidez, assim como a forma como lidou com suas frustrações posteriormente.
A contratransferência, ou ainda, fazendo uma paráfrase sobre uma das expressões usadas por Freud para definir esse processo, a influência do entrevistado sobre os sentimentos inconscientes do entrevistador (Laplanche,1991, p. 102), não deveria ocorrer de modo a prejudicar a escuta, levando a pessoa que conta a sua história a perder o fio capaz de conduzi-la a uma maior consciência de suas próprias motivações. A entrevista bem conduzida possibilita que as intervenções sugeridas ao final da mesma sejam aceitas mais naturalmente, como, por exemplo, encaminhar o caso para outros serviços.
A continuidade do trabalho já referido permitiu observar que a negação inicial da gravidez cedeu lugar a atitudes posteriores compensatórias por parte da genitora, para lidar com o sentimento de culpa, o que resultou na superproteção do filho. Por sua vez, essa atitude impediu que o educando apresentasse o desenvolvimento de suas potencialidades de modo coerente com suas possibilidades reais.
O acompanhamento do caso possibilitou o investindo em ações que permitiram à genitora uma evolução na sua compreensão do sentimento de competência do filho, adequando o modo como percebia suas possibilidades, que por sua vez melhoraram as suas expectativas quanto às condições de aprendizado do filho, que também reagiu positivamente, passando a demonstrar maior autonomia em relação ao aprendizado.


Bibliografia

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1991. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Contribuições da Psicopedagogia Institucional ao Processo de Ensino e Aprendizagem

Apresentação da Queixa

G. frequenta o 6° ano do ensino fundamental. Foi encaminhada para atendimento psicopedagógico, com a queixa de dificuldade para concluir as atividades solicitadas pela professora, as quais, por sua vez, estavam vinculadas às dificuldades relacionadas ao processo de leitura e compreensão de textos. Na ocasião em que realizou o encaminhamento, a educadora solicitou sugestões sobre como ajudar a educanda no processo de ensino e aprendizagem.

Realização do Atendimento

Durante o atendimento, foram desenvolvidas atividades lúdicas, pedagógicas e escuta de questões relacionadas ao modo como a educanda compreendia o aprender e as dificuldades que lhe eram atribuídas. Nos momentos lúdicos, a educanda demonstrou estar emocionalmente tranquila, evidenciando que as dificuldades enfrentadas no momento se davam exclusivamente no âmbito de situações de ensino e aprendizagem formal. Percebeu-se que, com frequência, G. tenta evitar as situações em sala de aula por senti-las como ameaçadoras, respondendo rapidamente e, na maioria das vezes, não conseguindo alcançar os resultados pedagógicos propostos. Em relação aos aspectos pedagógicos, durante a leitura solicitada, percebeu-se a ocorrência de ritmo mais lento, sobretudo quando sob o efeito da ansiedade. Sobre isso, a educanda justificou que ao experimentar esse sentimento, gagueja durante a leitura. Percebeu-se ainda que, em decorrência de realizar a leitura lentamente, a compreensão do texto fica comprometida ao final desse processo. Por outro lado, foi observada boa resposta aos estímulos oferecidos e, em leitura posterior, mais tranquila, realizou-a de modo mais fluente, possivelmente por menor influência da ansiedade. Sua produção escrita revelou a existência de necessidades ortográficas, bem como a importância da oferta de mediação para o desenvolvimento das ideias do texto.

Devolutiva à Professora

Na devolutiva apresentada à educadora que realizou o encaminhamento, foram propostas algumas ações que poderiam contribuir para os progressos educacionais de G.:
a)    Mediar, passo a passo, a realização das tarefas executadas pela educanda, transmitindo confiança em sua capacidade de realizar o que foi solicitado, possibilitando que administre quantidade de informação compatível com o sentimento de competência desenvolvido até o momento;
b)    Quando possível, a professora poderá realizar uma leitura em conjunto, com toda a sala, para favorecer a leitura individual posterior e possibilitar melhor compreensão do texto;
c)    Oferta de mais tempo para concluir as atividades de leitura e escrita;
d)    Reduzir o número de questões assertivas, quando a situação exigir, observando os aspectos qualitativos mais que quantitativos;  
e)    A discussão do texto antes de solicitar que ela redija o seu;
f)     Em caso de textos que serão pedidos em provas, se possível, permitir que ela leve para casa e treine antes de realizar a avaliação (ou oferecer mais de um texto, escolhendo um deles na ocasião);
g)    Ensinar estratégias para que a produção textual seja realizada em etapas. Exemplo: primeiro, construir o mapa mental. Em seguida, redigir. Depois ler para corrigir a ortografia. Por fim, se necessário, transcrever a forma definitiva para a entrega.        

Considerações Finais

As ações anteriores foram desenvolvidas dentro de uma abordagem destinada ao atendimento das necessidades pedagógicas, de modo que entre a queixa recebida e a devolutiva poderia ser considerado um transcurso de tempo breve. Além dos apoios sugeridos, um período de tempo mais longo poderia auxiliar em relação à possibilidade de aprofundar a compreensão das representações de G. quanto aos aspectos temíveis relacionados à apropriação do saber. Não obstante, deve-se levar em conta que uma abordagem breve trará contribuições ao trabalho institucional. Nesse sentido, a presença do profissional de Psicopedagogia na instituição escolar pode contribuir para a melhora nas condições de ensino e aprendizagem que demandam olhar específico, como no caso anteriormente apresentado, pela possibilidade de minimizar os efeitos trazidos pela ocorrência de um estado confusional que poderia se instalar no âmbito pedagógico. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

As Linguagens do Afeto na Educação e o Desenvolvimento Integral da Criança: Reflexão com Pais e Funcionários de Creche e Pré-Escola

1° Encontro

Explicação

A Psicopedagogia, como campo do saber interdisciplinar, busca dialogar com diferentes disciplinas e, a partir disso, oferecer respostas às demandas existentes nas comunidades em que o profissional desenvolve suas atividades. Uma das esferas em que a Psicopedagogia é capaz de apresentar suas contribuições corresponde aos anos iniciais do desenvolvimento, por meio da observação e intervenção, quando a instituição demonstra algum entrave para a construção do conhecimento. Às vezes, a atuação do profissional de Psicopedagogia pode ocorrer de forma preventiva. Algumas comunidades, nesse sentido, podem, em decorrência da fragilidade social, demandar ações para esse tipo de atuação, como ocorre quando o profissional se dedica a orientar famílias em situação de risco, decorrentes da pobreza, alta incidência de alcoolismo e drogadição. A apresentação a seguir propõe uma reflexão aos responsáveis e funcionários que atuam diariamente com as crianças, melhorando as qualidades vinculares e servindo como local onde o público atendido possa se sentir seguro e estimulado para o adequado desenvolvimento de suas potencialidades.

A Teoria do Apego

Gomes (2012) nos informa que durante o período da segunda guerra mundial (1939-1945), os estudiosos da psicanálise puderam verificar vários aspectos que demonstravam o sofrimento de crianças que eram separadas do convívio com seus familiares, em decorrência do número de mortes causadas por constantes bombardeios. A Clínica Tavistock, fundada em Londres, durante os anos 1920, tratava dessas crianças, nas quais era comum encontrar, em decorrência de traumas, sintomas como tremores, paralisias e alucinações, entre outros sintomas. John Bowlby foi um importante pesquisador nesse período. Para Bowlby, a natureza do apego existente entre seres humanos seria equivalente a outros instintos de preservação, como a fome e a sede. A Teoria do Apego foi desenvolvida durante a segunda metade do século XX por esse autor. Essa teoria estuda a natureza do vínculo entre mãe e bebê. Os seres humanos, assim como os animais, tendem a estabelecer vínculos que se tornam insubstituíveis. Algumas pesquisas a respeito das relações vinculares entre seres humanos apontam para a relevância desse aspecto para o desenvolvimento saudável da espécie. Nos anos 1950, um cientista chamado Harlow realizou pesquisas com um grupo de macacos Rhesus e pode comprovar resultados interessantes ao retirar esses animais do convívio com suas mães. Conforme observado, o comportamento desses macacos passou a ser caracterizado pela presença de movimentos estereotipados e pela autoestimulação, como demonstrado pelo hábito de sucção dos dedos dos pés e das mãos. De acordo com as conclusões obtidas na pesquisa, esses comportamentos não foram encontrados naqueles exemplares da espécie que receberam estimulação normal por parte de suas mães (Gomes, 2012, p. 16; Cruz e Caromano, 2011, p.4).
A observação de aspectos como os anteriores fez com que Bowlby se interessasse pelo estudo das consequências dos laços afetivos rompidos na fase inicial do desenvolvimento do indivíduo. A formação de uma vinculação tão expressiva se deveria à condição fisiológica vulnerável do bebê, levando-o a identificar no ambiente alguém que seja capaz de suprir os cuidados de que necessita para sua sobrevivência. Esse aspecto ganha especial relevância para a Teoria do Apego, pois a forma como esse vínculo inicial se constitui forma a matriz para os relacionamentos do indivíduo posteriormente, repercutindo no bem estar e na qualidade de vida do sujeito, quando suas necessidades são atendidas. Citando Bowlby (1988), Gomes, (op. cit., p. 12) afirma: “O comportamento de apego é definido, então, como qualquer forma de comportamento que resulta de uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo considerado mais apto para lidar com o mundo”. E completa dizendo que: “Chorar, sorrir, fazer contato visual, buscar aconchego e agarrar-se ao outro são ações que compõem o repertório comportamental básico de apego”. Ainda conforme Bowlby, as condições que ativam o comportamento de apego decorrem de fome, cansaço ou de sentir-se ameaçado por situações que a criança considera como estranhas ou ameaçadoras. As “condições terminais”, ou seja, que fazem cessar os incômodos anteriores, consistem em ver, ouvir e interagir com a “figura de apego”. A “busca de proximidade” seria uma necessidade inata em seres humanos, relacionado à busca de sobrevivência. Podem ser mencionadas, ainda, as conclusões de Hermann (1976), para quem o comportamento da criança envolve também um “instinto se exploração do ambiente” (Gomes, p. 17), evidenciando que o desenvolvimento da criança demanda tanto proteção quanto a oferta de autonomia.  

Afetividade e Desenvolvimento Infantil

Outra pesquisa apontada por Field (2004, p. X) menciona os resultados de pesquisas que correlacionam a baixa agressividade com a maior oferta de toques afetuosos. Em contrapartida, locais onde o toque afetuoso é menos expressivo, evidenciariam a maior incidência de contatos físicos agressivos. Field (2004) aponta para a conclusão de estudos científicos que sugerem que o toque contribui para o ganho de peso corporal em bebês prematuros, massa óssea e reduza as crises de choro e os efeitos do estresse. No âmbito emocional, o toque suave transmite segurança, conforto e amor. A ausência do contato físico possui implicações para o crescimento e para o bem estar. Pesquisas com crianças que vivem em orfanatos indicaram a relação entre a falta de contato físico carinhoso pode trazer influências para o desenvolvimento físico dessas crianças, que às vezes chegam a apresentar apenas metade do peso esperado para suas idades (idem). Além disso, o próprio desenvolvimento cognitivo demonstra que a ausência do toque afetuoso traz consequências para essa esfera do desenvolvimento. Bowlby conduziu estudos que evidenciaram que a delinquência presente em atitudes comportamentais apresentadas pelo público-alvo pesquisado (44 sujeitos com idades entre 5 e 16 anos de idade) em sua amostra poderia ser explicada não por fatores de natureza econômica, mas em decorrência das “ primeiras experiências afetivas da infância” (Gomes, 2012, p. 18).
A oxitocina é uma substância liberada através do toque carinhoso, evidenciando que as crianças que o recebem apresentam menor incidência de dor, bem como menor número de queixas relacionadas a problemas de atenção e comportamento (Field, 2004). Quando as condições ambientais são favoráveis, ocorrem melhoras em nível de redução do cortisol, repercutindo positivamente no âmbito cardiovascular e gastrointestinal, o que favorece a digestão e o aproveitamento dos nutrientes. A importância dessa substância natural para o organismo pode ser verificada pelo fato de que a oxitocina é utilizada para tratar déficits de aprendizagem relacionados a altos níveis de stress.

Benefícios da interação social positiva

Um padrão de relaxamento e bem estar pode ser favorecido por interações sociais positivas, como pelo sentimento de pertencer a um grupo. O bem estar e o relaxamento fisiológico podem ser alcançados também por um banho morno, exposição ao calor e alimentação e interações.

Os cuidados que interferem na qualidade do sono

Pesquisas sugerem que já no primeiro trimestre de gravidez, o feto já está harmonizado com o ritmo de funcionamento da mãe. O sono adequado é um fator necessário ao desenvolvimento normal da criança. Os bebês nascidos a termo dormem até 70 % do dia, enquanto que os não nascidos a termo podem dormir até 90% do período de um dia (Field, 2004). Devido à importância do sono para o desenvolvimento saudável, é importante assegurar que o mesmo seja tranquilo. Contribui para isso a adoção de atitudes como segurar o bebê, tocá-lo, manter contato físico, o que pode ser feito pelos seus cuidadores.

A Importância da Massagem para o Desenvolvimento do Bebê

As autoras Cruz e Caromano (2011, p. 3) afirmam: “Sabe-se hoje que, aplicada em bebês e crianças, a massagem facilita o crescimento, melhora a atenção e o aprendizado, assim como a função imunológica e o relacionamento entre a criança e o cuidador”. E afirmam que mesmo nos casos de mães que não receberam treinamento formal para massagear seus filhos, nota-se que o simples ato de tocar o bebê já promove reações fisiológicas benéficas. No Ocidente, a massagem para bebês começa a ser praticada a partir de 1976, a partir de sua introdução, pelo obstetra Frédérick Leboyer, da Shantala nos países da Europa. No Brasil, o início se deu a partir de 1980, com a iniciativa da pedagoga Maria Aparecida Gianotti, que apresentou uma técnica chamada “O Toque da Borboleta”, cuja autora foi Eva Reich (op. cit. p. 7). No caso da Shantala, esse nome é explicado da seguinte maneira. O já mencionado Frédérick Leboyer observou uma mãe indiana sentada no chão, com seu filho sendo massageado. Em homenagem ao nome da mãe que realizava a massagem, a técnica foi trazida para o Ocidente com o nome Shantala (op. cit. p. 14). Na Índia, a mães massageam os seus filhos até que esses completem três anos de idade. A partir daí, as massagens continuam sendo feitas uma ou duas vezes por semana, até as crianças completarem seis anos.

A Resposta Fisiológica à Massagem

A oxitocina é uma substância liberada não apenas durante o momento da amamentação, mas também quando a criança é estimulada pelo toque afetuoso. Os níveis da substância oxitocina são aumentados após a oferta de 10 ou 20 minutos de massagem. A massagem também aumenta os níveis do hormônio do crescimento, afetando positivamente o crescimento celular (idem). Em decorrência da importância da linguagem afetiva do toque para o desenvolvimento infantil, autores atuais têm orientado as professoras de berçário (nursery school), procurando estimulá-las a realizar massagens em crianças dessa faixa etária (Field 2004). Esta autora menciona ainda a realização de um estudo composto de dois grupos. Num deles, as mães realizavam os procedimentos usuais com os seus bebês, antes de os colocarem para dormir. O outro grupo recebeu orientações sobre a oferta de massagem terapêutica aos bebês. As mães desse segundo grupo proporcionavam 30 minutos de massagem diariamente aos seus bebês, no período entre oito e nove horas da manhã, após a primeira refeição e banho. Nesse momento, a genitora devia segurar a cabeça do bebê com cuidado com uma das mãos, enquanto que, com a outra, realizava movimentos circulares sobre as costas, com contato direto entre a mão da mãe e a pele das costas do bebê, em um ritmo de três vezes por segundo. O grupo constituído das demais mães realizavam as atividades como de costume, sem ofertar a massagem terapêutica. Os resultados obtidos ao final desse período em que a massagem foi oferecida comprovaram a existência de reação positiva dos bebês do grupo que teve acesso à massagem terapêutica, em relação aos que não receberam, pois nos casos em que a mesma foi ofertada, ocorreram melhores níveis de produção da melatonina, verificados no momento em que a massagem foi oferecida. A rotina da massagem foi considerada nesta pesquisa como um fator importante no ciclo do sono-despertar dos bebês que a receberam (Field, 2004).  Outro estudo menciona ainda que crianças que são massageadas durante o cochilo demonstram menor irritabilidade, pegam no sono mais rapidamente e apresentam sono mais profundo. Ainda sobre esse aspecto, pais são chamados a colaborar, massageando seus filhos antes de irem para cama, os quais notaram mudanças positivas na qualidade de vida dos filhos (Field, 2004).

Discussão: Pontos para Refletir

Podemos considerar a função dos professores de creche e pré-escola como de extrema importância para o desenvolvimento integral das crianças, pois a adequação ambiental possibilita induzir o relaxamento o relaxamento e as condições adequadas de saúde e crescimento.
Você acha que a oferta de condições adequadas no ambiente escolar ganha relevância nos casos de crianças que apresentam história de vínculos rompidos?
Como agir de modo a oferecer estímulos em ambos os sentidos à criança, ou seja, assegurar de que receba proteção e estimulação à exploração do ambiente?

Observação: Poderíamos considerar essa primeira apresentação como uma forma de introdução ao assunto, nos aprofundando melhor na prática em momento posterior.

Bibliografia

CRUZ, Cláudia Marchetti Vieira da; CAROMANO, Fátima Aparecida. Como e porque massagear o bebê: do carinho às técnicas e fundamentos. Barueri (SP): Manole, 2011.
FIELD, Tiffany. Touch and Massage in Early Child Development. Johnson & Johnson Pediatric Institute, 2004.
GOMES, Adriana Albuquerque. A teoria do apego no contexto da produção científica contemporânea. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012.   



terça-feira, 1 de março de 2016

A Atuação Psicopedagógica na Educação Infantil

Ações psicopedagógicas poderão contribuir no sentido de prevenir dificuldades futuras no desenvolvimento, assim como o faz ao propor estratégias em relação às dificuldades já instaladas. Caso não seja possível impedir a instalação de dificuldades, poderá ser de grande ajuda por reconhecer os entraves logo de início, auxiliando para que sejam minimizados. Após pesquisar algumas expectativas do desenvolvimento que são alcançadas por volta dos cinco anos de idade, elaborei esse caso hipotético para apresentar a um grupo de colegas, discutindo as possibilidades de atuação do psicopedagogo na instituição, junto a essa faixa etária. Estou compartilhando para que, havendo interesse pela aplicação do mesmo, possa ser usado com vistas a ofertar a atenção necessária ao público infantil.

RELATÓRI O DE OBSERVAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA
1. Identificação
Nome: XXXXXXXXXXXXXXXXXX
D.N: XXXXXXXXXXXXXXXXXX
Idade: 5 anos

2. Queixa Apresentada: dificuldade de comunicação e interação com o grupo, necessidade de intervenção para a realização das propostas, dificuldades de concentração e compreensão das comandas.

COMO OBSERVAMOS?

Com Atividades Desenvolvidas por Meio de Jogos e Brincadeiras.

O QUE OBSERVAMOS?
Os diferentes domínios do desenvolvimento, conforme alistados a seguir:

Domínios do Desenvolvimento: linguagem (compreensão, expressão e articulação), afetividade (socialização), motricidade (coordenação motora ampla, coordenação motora fina), memória, equilíbrio (estático e dinâmico), noções temporais, espaciais, ordem, tamanho, posição e compreensão das comandas.

Descrição dos Domínios/Atividades Realizados
A) Domínio: Comunicação
Atividade: Aprendendo a Identificar-se
Dinâmica em que cada um dos participantes diz o nome, a idade e, em seguida, passam o urso de pelúcia para o participante ao lado, para que façam o mesmo.
Questões observadas: A criança consegue dizer o próprio nome? Que atitudes demonstra ao interagir com o grupo (inibição, espontaneidade, dificuldade de pronúncia, autoconfiança, etc)?

B) Domínio: Desenvolvimento Motor
Atividade 1: Fazer uma pulseira utilizando barbante e macarrão
Questões observadas: a criança mantém o nível de desempenho de acordo com a média de sua idade? Atrapalha-se ou tem sucesso ao realizar a tarefa?

Atividade 2: O Educador Demonstra e a Criança Imita
A criança é capaz de abrir e fechar as mãos simultaneamente (ao mesmo tempo)? Consegue abrir uma das mãos ao mesmo tempo em que fecha a outra? Consegue, mantendo as mãos esticadas na horizontal, separar e unir os dedos sem movimentar o braço? É capaz de equilibrar-se sobre um dos pés? Corre, perseguindo em zigue-zague, sem perder o equilíbrio (de acordo com as possibilidades de seu momento evolutivo)? Salta sobre um barbante estendido a aproximadamente 15 centímetros do chão? Consegue realizar dois movimentos simultaneamente (usando uma pipa, é capaz de desenrolar a linha e correr, ao mesmo tempo)?

C) Domínio: Desenvolvimento Perceptivo
Atividade: Brincadeira com Quebra-cabeças (4 peças), Mapas, etc.
Questões observadas: a criança consegue realizar a atividade relacionando as partes ao todo? Demonstra ter recebido estimulação anteriormente, em tarefas desse tipo? Consegue melhorar seu desempenho observando o modo como os colegas o fazem? Ao selecionar as peças que usará, consegue orientar-se por pistas, como a cor da figura, ou outra? 

D) Domínio: Conhecimento de mundo
Atividade: Espontânea  
Questões observadas: durante as participações da criança em momentos pedagógicos ou lúdicos, quais são os assuntos que lhe interessam? De que ela fala, espontaneamente? Consegue dar um exemplo, quando solicitada, envolvendo animais, roupas, automóveis, etc? Conhece os dias da semana? Sabe dizer sua idade, nome de seus pais, quantos irmãos tem? Conhece algumas cores?

E) Domínio: Autonomia/Dependência
Atividade: Desenvolvidas na escola ou no lar
Questões observadas: Como reage quando encontra dificuldade: fica desanimada e tenta mudar de atividade? Persevera? Fica ansiosa? Pede ajuda?

F) Domínio: Afetividade
Atividade: Em grupo
Questões observadas: Relaciona-se bem com seus pares? Tem comportamento isolado? Demonstra atitudes que evidenciam tensão? Como reage diante da frustração?

Observações:
Depois de observar o desempenho da criança em todos esses domínios, os educadores poderão se questionar: Em vista dos aspectos observados, em que área a criança demonstrou necessitar de maior estimulação ao seu desenvolvimento? A resposta a essa pergunta precisa estar clara, pois é importante para providenciar os recursos necessários ao desenvolvimento da criança.

Sugestões relacionadas à queixa:
Em relação às dificuldades de comunicação: inserir em brincadeiras em que cada participante tem a oportunidade de falar para o grupo.
Em relação à necessidade de intervenção para a realização das propostas: encorajar cada demonstração de autonomia da criança, ainda que pequena, para encorajar essa atitude.
Em relação às dificuldades de concentração: o desenvolvimento da atenção pode ser favorecido pela oferta de jogos, brincadeiras, dinâmicas em que a criança precisa manter o foco na atividade realizada, esperar sua vez, ouvir o colega enquanto fala, etc.
Em relação às dificuldades de compreensão das comandas: certifique-se que a criança compreendeu adequadamente a explicação, ou se, mesmo após tê-la compreendido, não as realiza por estar demonstrando comportamento inibido (falta de autoconfiança em suas possibilidades). Caso se trate de dificuldade de compreender, opte por estratégias como explicações objetivas, pedir à criança que fale se entendeu o que é para ser feito ou ofereça auxílio até que ela demonstre confiança para fazê-la por si.

Outras sugestões para a escola e professores

- Graduar as atividades propostas em nível de complexidade, de modo a atender as necessidades de cada indivíduo do grupo.
- Planejar situações lúdicas que contribuam para a estimulação da criança e para compensar os déficits nos casos específicos observados. Ter em mente que cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento, características e necessidades.
- Identificar outros recursos existentes na comunidade, que possam auxiliar no processo de estimulação da criança.
- Fortalecer a parceria com as famílias, sugerindo outras ações que colaborem com os objetivos escolares.

Encaminhamentos (quando necessários)
- fonoaudiologia;
- psicologia;
Etc.


Explicação: Na realização das tarefas, é importante compreender que cada criança tem seu ritmo próprio de desenvolvimento. Para algumas, será necessário oferecer mais autonomia, enquanto que para outras será importante oferecer maior apoio. Toda criança (ou adulto) apresenta um nível de desenvolvimento real (o que já consolidou, sendo capaz de fazer sem ajuda), um nível de desenvolvimento potencial (o que é capaz de realizar quando recebe ajuda). Portanto, cada vez que o educador oferece mediação (auxílio), amplia a zona de desenvolvimento real da criança, ou seja, aumenta a sua capacidade de resolução de tarefas mais complexas, de modo autônomo. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A Atenção Necessária às Crianças Diagnosticadas com Síndrome de Down



Descrita, inicialmente, no ano de 1886, pelo médico Langdon Down, a Síndrome de Down corresponde a uma condição decorrente de fatores cromossômicos específicos, sendo também denominada trissomia 21. Algumas das características físicas percebidas nesse caso podem ocorrer também em parte da população (5%) não diagnosticada com a SD.
É necessário dedicar atenção à pessoa com SD, para auxiliar seu desenvolvimento de modo global, uma vez que essa condição se apresenta juntamente com certas deficiências que podem ser diagnosticadas nos primeiros momentos do desenvolvimento, que envolvem a esfera intelectual, psicomotora e estatural. Nesse sentido, a estimulação precoce é necessária na perspectiva do acompanhamento, da prevenção e do fortalecimento neuropsicomotor. A realização de parcerias entre família, educadores e demais profissionais envolvidos no atendimento da criança é um fator que trará grandes contribuições ao seu desenvolvimento. É importante não fragmentar o olhar necessário aos cuidados dedicados ao desenvolvimento da criança com SD, pois algumas das necessidades podem envolver o espaço do lar, bem como o escolar. Pensemos, por exemplo, no caso da criança diagnosticada com a doença celíaca. Nesse caso, além do acompanhamento médico, um nutricionista ajudaria a elaborar um cardápio necessário para atender as necessidades alimentares da criança. Por outro lado, pensemos nas adequações necessárias ao trabalho pedagógico com crianças diagnosticadas com SD e que apresentem outras condições, como cardiopatia (50%), ou perda auditiva (75%). As necessidades decorrentes desses diagnósticos exigiriam, ainda, o diálogo entre profissionais da saúde e educador físico, envolvidos no trabalho com o educando. Outros profissionais, como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais poderiam auxiliar, oferecendo informações relacionadas às condições posturais, bem como ao mobiliário necessário ao atendimento das necessidades da criança em cada situação de aprendizagem. Dentro de uma perspectiva inclusiva, a oferta de atividades diferenciadas poderia ser planejada de modo a beneficiar todos os alunos, em vez de apenas delimitar as atividades das quais a criança com SD poderá participar com a turma (em vista dos riscos de lesões). Também seriam necessárias orientações aos educadores, sobre estratégias pedagógicas capazes de favorecer as condições de ensino e aprendizagem (oferta de materiais específicos, localização do educando em relação aos educadores para favorecer a intervenção, etc).
O atendimento das necessidades decorrentes da diversidade existente no espaço escolar nos leva adotar uma perspectiva inter e multidisciplinar, realizando interações com profissionais de várias especialidades. Uma atitude positiva em relação à diversidade traz várias vantagens, pois favorece a criação de espaços de educação permanente, levando os profissionais a buscarem os saberes necessários ao atendimento de cada criança atendida pela instituição escolar. Ao proporcionar a atenção individualizada necessária, a prática educacional encontra-se com o ideal da sociedade democrática, favorecendo a ampliação das possibilidades de atuação dos educandos no espaço coletivo, quando o sujeito passa a ser percebido dentro das singularidades relacionadas às suas necessidades e potenciais.   



Bibliografia


Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes de atenção à pessoa com Síndrome de Down. Brasília: Ministério da Saúde, 2012.